dezembro 05, 2005

cones, rods and meissner's corpuscles

não passavam de duas almas perdidas no caminho de casa. amarrotadas por uma mão invisível, num passado incerto. imersas num turbilhão de pensamentos e emoções que não conseguiam entender. muito menos controlar. a voz que lhes falava baixinho ao ouvido impelia-os a olhar em frente para um futuro menos complicado. mais puro. talvez mesmo feliz.

os seus olhos tocaram-se à distância. em qualquer outra ocasião, voltariam rapidamente à condição original. a fóvea virar-se-ia para o ponto diametralmente oposto, numa tentativa vã de disfarçar a carícia momentânea. mas não desta vez. a distância pareceu encurtar-se em fracções de segundo. como se se tratasse de um ambicioso truque de ilusionismo, tudo à sua volta se obliterou, deixando apenas uma linha recta. a menor distância entre dois pontos num plano diferente dos restantes. não eram necessárias palavras quando os olhos teimavam em gritar a plenos pulmões.

caminharam lado a lado durante um período de tempo que lhes pareceu horas. os seus passos ritmados conduziram-nos a um local calmo. quase mágico.

a ausência de som contrastava com o bater frenético dos seus corações. depois de dispensarem expressões verbais, depressa se encarregaram de retirar os entraves físicos que os separavam. ficaram alguns segundos de pé, frente a frente, completamente nus. olhando-se nos olhos. perscrutando a alma do outro e tentando encontrar a porta fechada por detrás de correntes e cadeados. aperceberam-se que cada um tinha a chave que abria a porta alheia. a medo, decidiram experimentar abri-las.

os seus dedos entrelaçaram-se enquanto os lábios selavam o acordo alcançado. os seus corpos mataram a sede no oásis que era o outro. a travessia do deserto fôra longa, recheada de miragens. tinham finalmente chegado a porto seguro.

na manhã seguinte, enquanto a chuva caía do lado de lá das janelas fechadas, cartografaram-se um ao outro, de olhos fechados e tendo como único instrumento as pontas dos dedos e os relevos das respectivas impressões digitais. foi a forma que encontraram para determinar onde a alma de cada um estava.

tinham duas certezas: ambas estavam no mesmo local. nenhuma delas estava perdida.

4 ex troardinary remarks:

Blogger Ana Elias wrote...

Muito bom. Brilhante! Mágico.

Beijinhos

05/12/05, 10:48  
Blogger paulo wrote...

de vez em quando sai bem. mesmo em português...

05/12/05, 11:06  
Blogger Unknown wrote...

Muito bom!! E não é para qualquer um usar a palavra fóvea num contexto tão poético. Tás em grande!

05/12/05, 11:42  
Blogger paulo wrote...

a fóvea tenho que agradecer a um amigo meu que está em cambridge a trabalhar em neurobiologia. lembrei-me dele e saltou-me logo à cabeça a palavra.

não diria contexto poético. é mais contexto prosaico. em grande. era bom...

05/12/05, 17:19  

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