novembro 25, 2004

In utero – Nirvana – 21 de Setembro de 1993

Os meus pais sempre quiseram ter uma menina… será justo afirmar que não foram muito bem sucedidos da primeira vez que tentaram. Afinal de contas, nasceu o meu irmão. Presumo que a desilusão não tenha sido grande porque um primogénito é sempre um primogénito, independentemente do género.

Os anos foram passando.

Acho que nunca saberei se a minha vinda a este mundo foi puramente acidental ou planeada. Pelo que me contam, tudo foi planeado. Mas 9 anos a distanciar o nascimento de dois filhos parece-me exagerado. Tudo terá surgido pelo facto do meu irmão querer uma companhia para além do meu primo. O “irmão” de infância dos seus primeiros anos, companheiro de brincadeira e quase sempre vítima inocente das frequentes asneiras do meu irmão.
É estranho como tão cedo nos damos conta que a solidão nos arrasta para sensações fortes. No caso do meu irmão, terá sido por volta dessa idade. Quando se terá apercebido que faltava mais alguém? Que tipo de sentimentos lhe terão assolado o espírito então irrequieto?

Esta terá sido a motivação para que a família crescesse. Imagino os meus pais a desejar a chegada de uma menina.

Ana Lúcia. Um cromossoma diferente e seria este o meu nome. Teria certamente um aspecto diferente (capilarmente falando seria crucial…), mas seria eu?
No meio da lotaria e da aleatoriedade dos gâmetas e do genoma por eles transportado, estaria a minha essência em todos eles? Estariam todos eles confinados ao mesmo destino?

Quem sabe se realmente não serei uma mulher presa num corpo de homem? Ou uma espécie de ser imaterial e assexuado cujo aspecto exterior se molda ao receptáculo que lhe é destinado, independentemente do seu sexo?

Terá a vontade dos meus pais em ter uma menina alimentado o espírito perverso dentro desse ser em construção de tal forma que o resultado final foi exactamente o oposto?

Terão os olhos fitado desiludidos um pedaço a mais no recém-nascido? Terá essa desilusão algo a ver com a distância que sempre existiu?

Gosto de pensar que mesmo que tenha existido uma desilusão inicial, ela esteja a ser esbatida à medida que o tempo passa… porque há sempre tempo para encurtar distâncias…

4 ex troardinary remarks:

Anonymous Anónimo wrote...

Ponto 1 - Se tivesses esse tal cromossoma diferente, simplesmente, n serias tu! Como tal, nem terias oportunidade de, 24 anos mais tarde, ter semelhantes dúvidas existenciais! Já pensaste nisso?!

Ponto 2 - Tens a noção q, se calhar, pelo menos metade da população mundial terá nascido nas mesmas circunstâncias de indesejabilidade, e portanto, partilharão contigo essa "angústia". Ou então n...

Ponto 3 - Quando um dia tiveres um filho vais esclarecer, e rapidamente perceber q, na realidade, o sexo do bebé é meramente um pormenor técnico!

And remember: "One life. Live it well."

Beijos,

Sofes

26/11/04, 21:16  
Blogger Inês wrote...

Eu fui um acidente. Os meus pais nem sabem bem em que altura eu fui concebida: a minha mae chegou (apos algumas contas) a um intervalo de duas semanas em que "provavelmente" eu surgi. Quando penso nisto, sinto-me meio que uma intrusa no mundo. Nao era bem suposto eu estar por aqui... Mas ao mesmo tempo, da-me um prazer meio preverso: mesmo que nao quisessem, tem que me aturar. A verdade e que muitos dos progressos (cientificos e nao so) provem de acidentes.
Bora dar cabo deles!
Beijo

27/11/04, 05:50  
Blogger o som do vento wrote...

nasci quando a minha mãe tinha 18 anos de idade e era (ainda) solteira... ora aqui está algo que não é planeado... sinceramente sempre achei que era um empecilho na vida de quem me concebeu e isso arrastou-se até hoje. são estas as minhas conclusões, as minhas dúvidas e certezas.
sempre quis ter um irmão, ou uma irmã, alguém... a solidão é algo que nos afecta profundamente e se nos sentirmos a mais, é o "baixar dos braços", definitivamente até hoje foram raras as vezes em que não me senti assim, só, um empecilho, algo a rejeitar...
lamentos à parte. tu és alguém excepcional, pelo que me foi dado a conhecer, foste um aluno de sucesso, ao alcance de poucos, tens um futuro promissor e amplo à tua frente, és decerto um orgulho para a tua família e para os que se cruzem no teu caminho. Eu digo, tive orgulho em cruzar o teu e de ter podido apertar a mão a alguém como tu.

27/11/04, 12:05  
Anonymous Anónimo wrote...

Tiveste o azar de não seres XX...toda a gente sabe que o sexo forte, o sexo que governa o mundo é o feminino (embora a gente deixe os homens pensar que é ao contrário).
Fora de brincadeiras, é lógico que o facto de seres homem moldou a tua personalidade, mas não vale a pena estares a pensar como seria se tivesses sido rapariga...tal como não vale a pena pensar se eras desejado ou não! A verdade é que estás cá e isso é que interessa! A vida é uma mistura de acasos, encontros e desencontros... todos os dias estamos perto da morte: sair um segundo mais tarde de casa pode ser o suficiente para não ser atropelado, correr para apanhares o autocarro pode significar que chegues a tempo para encontrares a tua metade, sem à partida o saberes... estás a ver onde quero chegar! Há tantas possibilidades e "realidades paralelas" que chega a ser assustador.
Pelo menos nesta realidade tu existes, e ainda bem! De certeza que os teus pais estão muito orgulhosos de ti...quem não estará?
E ainda bem que não és mulher, pois provavelmente nunca teria tido a oportunidade de te conhecer como conheço. Tu sabes que és especial... não só para mim, mas para muita gente.

When you get sad just sing!

Não deixes que a tristeza e o sentimento de solidão te consumam. Estás longe, mas não estás só nem esquecido... isso nunca!

Guida

27/11/04, 17:14  

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